O ABUSO E A CONFUSÃO DA ALMA: O OLHAR DE FERENCZI
Se há algo que destrói a inocência de uma criança mais rapidamente do que qualquer outro sofrimento, é a traição de quem deveria protegê-la. Não falo de um erro banal, de um lapso momentâneo, mas de algo muito mais profundo e cruel: a invasão do espaço sagrado da infância, o abuso de sua vulnerabilidade, a quebra da confiança fundamental que deveria ser o alicerce de sua alma.
Sándor Ferenczi, um psicanalista que ousou olhar para onde muitos desviavam os olhos, percebeu que o trauma do abuso sexual não era apenas um evento doloroso, mas uma ferida que alterava a própria estrutura da identidade do indivíduo. Ele chamou esse fenômeno de “Confusão de Línguas entre Adultos e Crianças” (Ferenczi, 1933). O que ele quis dizer com isso? Que o adulto, movido por desejos que a criança não pode compreender, fala a linguagem da excitação, enquanto a criança fala a linguagem da ternura. Ela busca amor, refúgio, proteção. O adulto, ao perverter esse desejo de afeto, arrasta a criança para um mundo que ela não conhece, um mundo onde o amor é distorcido e onde a confiança é usada como armadilha.
E o que acontece com essa criança? Ela não entende. O abuso não é apenas um ato de violência física, mas um golpe na maneira como ela percebe a si mesma e ao mundo. Seu coração sussurra que algo está errado, mas o agressor, muitas vezes alguém em quem confiava, age como se tudo fosse normal. Incapaz de conciliar o que sente com o que vê, a criança começa a duvidar de sua própria percepção. Ela pensa: Se ele diz que isso é amor, talvez eu esteja errada. Talvez eu seja a culpada.
Ferenczi observou que muitas vítimas de abuso desenvolvem o que chamou de “amolecimento do Eu”. Em termos simples, significa que, para sobreviver ao trauma, a criança aprende a se render. Ela se molda ao agressor, assume sua perspectiva, aprende a não resistir. Não porque quer, mas porque seu espírito, ainda em formação, encontra nisso um meio de continuar existindo. É como um pequeno barco à deriva, sem leme, levado pela correnteza.
E quando cresce? Muitas dessas crianças se tornam adultos que carregam dentro de si um fardo invisível: a culpa que não é delas, mas que tomaram para si. Ferenczi chamou isso de “introjeção da culpa”, o ato de absorver a responsabilidade pelo que aconteceu, de transformar a dor imposta em uma marca silenciosa de vergonha. Essas pessoas frequentemente vivem divididas: por fora, parecem normais; por dentro, uma parte delas ainda sussurra que são indignas de amor, que há algo nelas que sempre será errado.
Mas, então, onde está a saída? Ferenczi, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, acreditava que a cura do trauma não poderia ser alcançada apenas pela distância e pela análise fria. Ele via que aqueles que sofreram abuso não precisavam apenas de interpretação, mas de algo mais humano e mais profundo: reparação e acolhimento. O terapeuta, dizia ele, deveria ser um verdadeiro guia, um porto seguro onde o paciente pudesse, enfim, reescrever sua história, não como vítima indefesa, mas como alguém capaz de recuperar sua própria voz.
Ferenczi nos lembra que o trauma do abuso sexual não é apenas uma tragédia pessoal, é um veneno que corrói a confiança no amor e na bondade do mundo. Mas, se o abuso ensina a desconfiança, a cura ensina algo ainda mais poderoso: que a alma humana, ainda que ferida, ainda pode ser restaurada.
Referências Bibliográficas
FERENCZI, S. (1932). Diário Clínico. São Paulo: Escuta, 1990.
FERENCZI, S. (1933). Confusão de Línguas entre Adultos e a Criança. In: FERENCZI, S. Psicanálise IV. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.



Respostas de 3
Forte
O maior fracasso dos pais é não salvar seus filhos do abuso.
Pais pensam em tudo menos na protecao
“Não porque quer, mas porque seu espírito, ainda em formação, encontra nisso um meio de continuar existindo.”
O termo espírito (humano) foi relacionado ao quê? Ao inconsciente?