No dia 10 de outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental nos convida a olhar para dentro. Eu quero te convidar a olhar também para o corpo.
Muita gente procura ajuda dizendo que sente dores que os exames não explicam, que não consegue dormir uma noite inteira, que vive cansada sem saber o motivo. Quando esses sinais aparecem, quase ninguém pensa na infância. Mas a infância costuma estar mais perto do que parece.
O trauma de infância não fica só na memória
Existe uma ideia muito comum de que o tempo apaga o que passou. Quem viveu um trauma precoce sabe que a experiência é outra. O que aconteceu pode não ter palavras, pode não ter uma lembrança organizada, e mesmo assim continuar presente no jeito de respirar, de dormir, de se defender, de se aproximar das pessoas.
Freud já observava que o que não consegue ser lembrado tende a se repetir. Ferenczi foi além. Ele escutou adultos que tinham sofrido violência quando crianças e percebeu que a dor mais profunda aparecia na relação com o outro e no próprio corpo, muitas vezes antes de aparecer em palavras.
A neurociência contemporânea, com autores como Bessel van der Kolk, descreve algo parecido. O trauma precoce fica registrado de um modo que não passa pela narrativa. O corpo aprende a ficar em alerta, e continua em alerta mesmo quando o perigo já passou.
Como o corpo costuma falar
Cada pessoa tem a sua linguagem, mas alguns sinais aparecem com frequência na clínica:
- insônia, despertares na madrugada, sono que não descansa
- dores crônicas e tensões que não se explicam por causa orgânica
- cansaço persistente
- sensação de estar fora do corpo ou de assistir à própria vida de longe
- reações intensas a cheiros, vozes ou toques que lembram algo que a pessoa nem sabe nomear
- dificuldade de sentir prazer, ou de sentir qualquer coisa
Ter um ou mais desses sinais não significa que exista um trauma por trás. Muitas causas são possíveis, e investigar com um médico é sempre o primeiro cuidado. O que a psicanálise propõe é uma escuta a mais: quando o corpo diz algo que ninguém consegue explicar, vale perguntar o que ele pode estar comunicando.
Por que a palavra não vem
Quando uma criança vive algo grande demais para o que ela consegue compreender, o psiquismo precisa dar um jeito de seguir adiante. Uma das formas é separar a experiência do afeto. A criança continua indo à escola, brincando, respondendo aos adultos, enquanto por dentro algo fica guardado em outro lugar.
Isso tem um nome na clínica, dissociação, e foi uma saída inteligente para quem não tinha outra. A dificuldade aparece depois. Na vida adulta, essa pessoa pode dizer que está bem, e sinceramente acreditar nisso, enquanto o corpo fala por ela.
Quando o abuso sexual na infância faz parte dessa história, existe ainda um segundo peso. Muitas crianças tentaram contar e não foram acreditadas. Ferenczi chamava isso de desmentida, e entendia que ela podia machucar tanto quanto o ocorrido. A criança aprende a duvidar do que sentiu e a guardar silêncio. O corpo, que não aprendeu a calar, continua dizendo.
O que ajuda
O corpo precisa de tempo para aprender que o perigo passou. Ele aprende pela experiência, e não por argumento. Alguns caminhos costumam fazer diferença:
Um espaço seguro e consistente. Um acompanhamento terapêutico com horários estáveis e uma escuta que não apressa nem julga ensina ao sistema nervoso, aos poucos, que existe um lugar onde é possível baixar a guarda.
Atenção ao que o corpo sente. Perceber onde há tensão, como está a respiração, o que muda quando um assunto é tocado. Não é preciso interpretar. Observar já é um começo.
Respeito ao seu ritmo. Ninguém precisa contar tudo de uma vez. A palavra costuma chegar quando há segurança suficiente para ela existir.
Ajuda profissional com formação no tema. Trauma de infância pede um olhar cuidadoso, e a elaboração acontece melhor na relação com alguém preparado para escutar sem retraumatizar.
Nada disso tem prazo fixo ou promessa de resultado rápido. O que se constrói é uma relação diferente com a própria história, que deixa de governar o presente sem aviso.
Neste 10 de outubro
Se você se reconheceu em alguns sinais deste texto, saiba que existe uma razão para o que você sente, e que você não precisa carregar isso sozinha ou sozinho. Procurar escuta qualificada é um ato de cuidado.
Se em algum momento a dor ficar maior do que você consegue suportar, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
E se você é profissional da saúde mental e quer aprofundar a escuta do trauma, o Instituto Barilli oferece formações baseadas em Freud e Ferenczi, com ética e responsabilidade clínica. Conheça o curso Reconstrução Emocional e o método RESSOMA.


