Como atender sobreviventes de abuso sexual na infância sem retraumatizar

Quem começa a atender sobreviventes de abuso sexual na infância costuma sentir, nas primeiras sessões, um medo muito honesto: o de dizer a coisa errada. Esse medo tem fundamento. A clínica do trauma exige um cuidado que a formação geral nem sempre ensina, e um erro de manejo pode repetir, dentro do consultório, algo que o paciente já viveu fora dele.

Neste texto, reuni os pontos que considero mais importantes para quem está construindo essa prática. Eles vêm de mais de 25 anos de clínica e da tradição de Freud e Ferenczi, que orienta o meu trabalho.

O que significa retraumatizar na clínica

Retraumatizar acontece quando algo na relação terapêutica reativa, no paciente, a experiência de não ser acreditado, de ser invadido ou de ser abandonado. Ferenczi chamava de desmentida o momento em que o adulto nega ou minimiza o que a criança viveu, e entendia que essa negação podia machucar tanto quanto o próprio abuso.

Na sessão, a desmentida raramente aparece de forma explícita. Ela costuma vir disfarçada de boa intenção: uma interpretação apressada, um silêncio frio, uma mudança de assunto quando o material fica pesado, um consolo oferecido antes que a dor possa ser sentida.

O sistema nervoso de quem cresceu em um ambiente imprevisível observa o terapeuta o tempo todo. Ele percebe a diferença entre presença real e presença encenada, e responde a isso muito antes das palavras.

Cinco erros frequentes no início do atendimento

Investigar o abuso com perguntas diretas. A pressa de saber o que aconteceu pode se tornar uma nova invasão. O paciente conta quando houver segurança, no tempo dele.

Interpretar cedo demais a origem do sofrimento. Nas primeiras sessões, o trabalho é construir o campo de confiança. Interpretações precoces sobre o trauma costumam ser recebidas como mais uma voz que diz ao paciente o que ele sente.

Sustentar uma neutralidade fria. Ferenczi alertava que o analista distante pode ser vivido como repetição da indiferença que o paciente já conheceu. Neutralidade técnica não precisa significar ausência de calor.

Normalizar com frases como “já passou, agora você é adulta”. O corpo não funciona com essa lógica. O que não foi elaborado continua atual para quem o carrega.

Duvidar da dor porque falta memória completa. Muitos sobreviventes têm fragmentos, sensações e sintomas, mas não uma narrativa organizada. A ausência de lembrança clara não significa ausência de experiência.

Cuidados clínicos que protegem o vínculo

1. Comece reconhecendo

O primeiro movimento do método RESSOMA é o Reconhecer. Antes de qualquer técnica, o paciente precisa sentir que o que ele traz é levado a sério. Frases simples, ditas com presença, já cumprem essa função: “O que você viveu foi real”, “Você carregou isso sozinho por muito tempo”, “Aqui você pode dizer no seu ritmo”.

2. Cuide do enquadre como cuidado clínico

Horários estáveis, honorários claros, avisos com antecedência. Para quem cresceu com imprevisibilidade, a constância do enquadre ensina ao corpo, semana após semana, que existe um lugar confiável. Cada ruptura, mesmo pequena, pode reativar o alarme de que o que é bom não dura.

3. Respeite o ritmo do paciente

Ninguém precisa contar tudo de uma vez. O silêncio também comunica, e merece ser sustentado antes de ser preenchido. Quando o paciente chega com um silêncio pesado, uma frase como “Estou aqui, podemos ficar com isso um momento” costuma dizer mais do que uma pergunta.

4. Inclua o corpo na escuta

Respiração que muda, postura que se fecha, voz que perde o tom. Esses sinais são dados clínicos, e o segundo movimento do RESSOMA, Escutar o corpo, propõe que o terapeuta os acolha como linguagem do trauma, sem reduzi-los à biologia.

5. Saiba manejar a dissociação

Quando o paciente se ausenta no meio da sessão, o foco é ancorar, e a interpretação fica para depois. Mencionar o dia e o lugar em que vocês estão, convidar a perceber os pés no chão e o peso do corpo na cadeira, e depois acolher o retorno sem exigir que a conversa continue de onde parou. A exploração do que disparou a dissociação pode acontecer em outra sessão.

6. Sustente a ambivalência em relação ao agressor

É comum que o paciente fale do agressor com afeto, ou sinta falta dele, e depois se pergunte se isso o torna uma pessoa horrível. Negar o afeto seria uma falsificação, e validar sem nomear a violência seria outra. O trabalho é ajudar a separar o que foi misturado pela confusão de línguas, e esse é o território do pilar Separar afeto e agressão.

7. Planeje a rede de apoio

Ideação suicida, automutilação, dissociação intensa e revivescência traumática pedem atenção redobrada. Nesses casos, é ético articular acompanhamento psiquiátrico, grupos de suporte e serviços de proteção. O terapeuta não precisa ser a única fonte de apoio do paciente, e não deve se colocar nesse lugar.

Quando o paciente testa o terapeuta

Entre os momentos mais delicados da clínica estão aqueles em que o paciente verifica, de formas indiretas, se este espaço é mesmo diferente dos anteriores. Ele pode dizer que você deve estar entediado, que já ouviu histórias piores, que não se lembra do que foi dito na semana passada.

Cada um desses testes é uma pergunta sobre confiança. Uma resposta direta e honesta, como “Não estou entediado, estou aqui com você, e me lembro do que você trouxe”, costuma ter mais valor do que qualquer interpretação. A consistência do terapeuta diante do teste já é terapêutica.

O cuidado com quem cuida

Trabalhar com trauma mobiliza o terapeuta. A fadiga por compaixão e a traumatização vicária são consequências previsíveis de usar a empatia como instrumento, e não sinais de despreparo.

Alguns pontos protegem a clínica e quem a conduz:

  • supervisão regular, preferencialmente com experiência em trauma
  • análise pessoal contínua, especialmente quando o material do paciente toca a própria história
  • vida fora do consultório, com sono, movimento, relações e atividades sem agenda profissional
  • atenção aos sinais de alerta, como dificuldade de estar presente nas sessões, impaciência com o ritmo do processo e perda de prazer fora do trabalho

Ferenczi dizia que a análise do analista deveria ser a segunda regra fundamental da psicanálise. Cuidar de si, nesse campo, faz parte da ética clínica.

Sem promessa de resultado rápido

O atendimento a sobreviventes não tem prazo fixo nem garantia de cura. O processo avança em espiral, retorna a pontos já trabalhados com mais recursos, e pede do terapeuta paciência com o tempo do paciente. O que se constrói, ao longo dos meses e anos, é uma relação diferente do sujeito com a própria história.

Para quem quer se aprofundar

O RESSOMA foi desenvolvido para oferecer ao terapeuta uma base teórica sólida e um caminho clínico estruturado para o trabalho com traumas difíceis. Seus sete pilares são Reconhecer, Escutar o corpo, Simbolizar, Separar afetos e agressão, Ocupar-se de si, Maternagem simbólica e Autorização subjetiva. A formação inclui fundamentos de Freud e Ferenczi, escuta da linguagem pelo ADL, ética, grupo terapêutico e qualidade de vida do terapeuta.

Se você está começando a atender esse público e quer segurança clínica e ética, conheça a formação do Método RESSOMA.

Dra. Sandra Barilli é psicóloga, psicanalista e doutora em Psicologia, com mais de 25 anos de atuação na clínica do trauma do abuso sexual na infância. Fundadora do Instituto Barilli, forma terapeutas em todo o Brasil.

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