O paciente concorda com tudo? Ferenczi e o vínculo terapêutico

Por Dra. Sandra Barilli | Instituto Barilli

O paciente concorda rapidamente com cada interpretação, raramente faz perguntas e nunca demonstra incômodo. Será que encontramos uma relação de confiança ou ainda precisamos compreender o que acontece nesse vínculo?

Quando um paciente concorda com tudo na terapia, isso pode indicar que ele compreendeu a intervenção e se sente à vontade com o terapeuta. Entretanto, a concordância também pode expressar receio de discordar, desejo de agradar ou dificuldade para comunicar o próprio desconforto. Na perspectiva de Sándor Ferenczi, precisamos investigar essas possibilidades com cuidado, sem concluir antecipadamente o que o comportamento significa.

Essa questão toca um ponto fundamental da segurança clínica: a relação terapêutica precisa oferecer espaço para que o paciente possa expressar sua experiência, inclusive quando ela é diferente daquilo que o profissional compreendeu.

Quando a concordância do paciente merece nossa atenção?

Quero convidar você a pensar em uma situação que pode acontecer em muitos consultórios.

Durante uma sessão, o terapeuta apresenta uma hipótese sobre aquilo que o paciente acabou de contar.

A resposta chega imediatamente:

“Sim, exatamente. Você tem toda razão.”

O atendimento continua. Pouco depois, outra interpretação recebe a mesma resposta. Na sessão seguinte, o movimento se repete.

A princípio, podemos considerar que o paciente reconheceu algo importante nas intervenções. Talvez realmente exista confiança e compreensão.

Mas será que essa é a única possibilidade?

Ao longo dos meus estudos e da minha experiência na clínica do trauma, passei a prestar muita atenção àquilo que ocorre na própria relação terapêutica.

Afinal, o paciente pode comunicar aspectos importantes de sua experiência por meio da maneira como se relaciona conosco.

Por essa razão, considero valioso perguntar: essa pessoa consegue demonstrar quando não concorda comigo?

Essa investigação não deve surgir como desconfiança automática da resposta. Trata-se de manter nossa escuta aberta aos diferentes sentidos que uma concordância pode apresentar.

O que Sándor Ferenczi nos ajuda a compreender sobre esse vínculo?

O pensamento de Sándor Ferenczi oferece contribuições importantes para compreender a experiência relacional de pessoas que viveram situações de violência, desamparo e sofrimento psíquico.

Em seu trabalho Confusão de línguas entre os adultos e a criança, apresentado em 1932 e publicado em 1933, Ferenczi examinou os efeitos da violência praticada por adultos contra crianças.

Entre os fenômenos discutidos pelo autor está a identificação com o agressor, relacionada a formas de adaptação psíquica diante de uma experiência de terror e impotência.

Essa formulação nos ajuda a pensar como uma pessoa pode desenvolver modos de se relacionar profundamente marcados pela necessidade de preservar a própria segurança diante de alguém de quem depende.

Entretanto, é fundamental fazer uma distinção.

Concordar frequentemente com o terapeuta não comprova identificação com o agressor, submissão traumática ou a existência de abuso na história do paciente.

Essas hipóteses precisam ser consideradas dentro de uma investigação clínica muito mais ampla, que respeite a história, o contexto e os sentidos apresentados pela própria pessoa.

O que encontro de especialmente valioso na leitura de Ferenczi é o convite para observar a relação sem reduzir o paciente a uma explicação pronta.

A diferença entre compreender e se adaptar

Imagine alguém que, ao longo da vida, tenha aprendido que discordar de pessoas importantes provocava conflitos difíceis de suportar.

Ao iniciar uma relação terapêutica, essa pessoa talvez encontre dificuldades para comunicar opiniões diferentes, sobretudo nos momentos em que se sente emocionalmente vulnerável.

Essa é uma hipótese possível, entre muitas outras.

Por outro lado, existem pacientes que concordam porque realmente compreenderam algo novo sobre si mesmos. Há também diferenças culturais, comunicativas e pessoais que influenciam a maneira como cada um demonstra concordância.

Portanto, precisamos observar o conjunto da experiência, evitando transformar um comportamento em sinal inequívoco de trauma.

Concordância não é sinônimo de segurança clínica

Uma relação terapêutica pode apresentar momentos de entendimento, divergência, desconforto e necessidade de esclarecimento.

Quando o paciente se sente suficientemente à vontade para expressar uma diferença, temos a oportunidade de conhecer melhor aquilo que está acontecendo entre nós.

Entretanto, se a pessoa concorda rapidamente com todas as intervenções, talvez precisemos investigar como ela vive esse encontro.

Será que sente que pode dizer que não compreendeu? Existe espaço para perguntar? Consegue comunicar quando determinada interpretação não corresponde ao que está sentindo?

Essas perguntas ajudam a ampliar nossa atenção para a qualidade do vínculo terapêutico.

Pesquisas contemporâneas sobre a aliança terapêutica também ressaltam a importância de reconhecer tensões e diferenças entre paciente e terapeuta. A literatura sobre ruptura e reparação da aliança mostra que identificar dificuldades na relação e trabalhar sua reparação pode ser relevante para o processo terapêutico.

Contudo, esses estudos não permitem afirmar que toda concordância represente uma ruptura silenciosa.

Uma pergunta importante para a segurança clínica é: o paciente encontra liberdade para me dizer que minha interpretação não fez sentido?

Como observar uma concordância sem chegar cedo demais a uma conclusão?

Na clínica do trauma, considero especialmente importante separar aquilo que observamos daquilo que imaginamos compreender.

Essa distinção ajuda o terapeuta a formular hipóteses com responsabilidade.

1. O fato observado

O paciente concordou rapidamente com a interpretação apresentada.

Essa é a informação disponível naquele momento.

2. As hipóteses possíveis

A interpretação pode ter feito sentido. Entretanto, o paciente também pode estar tentando agradar, evitar um conflito ou encerrar um assunto que considera difícil.

Há ainda outras explicações que desconhecemos.

3. O que ainda precisamos investigar

Como essa pessoa se sente diante das intervenções? O que acontece quando não concorda com alguém? Existe alguma dificuldade para comunicar o desconforto?

Essas perguntas precisam encontrar lugar no processo terapêutico, respeitando o tempo e as condições do paciente.

4. A resposta clínica possível

Dependendo do contexto, o terapeuta pode abrir espaço para que o paciente fale sobre como recebeu determinada intervenção.

Depois disso, será importante observar como ele responde e quais novos elementos surgem na relação.

O objetivo é compreender melhor o paciente, preservando sua liberdade para confirmar, questionar ou rejeitar nossas hipóteses.

Um exemplo clínico para refletir

Situação fictícia construída exclusivamente para estudo. Não corresponde ao relato de uma paciente real.

Marina está em processo terapêutico há algumas semanas.

Durante as sessões, costuma pedir desculpas quando chora. Frequentemente pergunta se está conseguindo explicar seus sentimentos da maneira correta.

Ao ouvir uma interpretação, responde:

“Sim. É exatamente isso. Você sabe explicar melhor do que eu.”

Em outra sessão, entretanto, Marina começa a apresentar um ponto de vista que parece diferente daquele proposto pelo terapeuta.

Antes de terminar sua frase, interrompe a própria fala:

“Desculpa, acho que estou confundindo as coisas.”

Esse momento pode despertar perguntas importantes.

O que levou Marina a interromper sua explicação? Ela sentiu que havia algo inadequado em discordar? Estava apenas tentando encontrar palavras melhores?

Não temos elementos suficientes para responder.

Por isso, o terapeuta precisa continuar investigando.

Conforme o vínculo e o momento da sessão, poderia considerar uma intervenção como:

“Você começou a me apresentar uma ideia diferente e depois interrompeu sua fala. Gostaria de compreender o que aconteceu para você nesse momento.”

Essa formulação é apenas uma possibilidade didática, e não um roteiro de intervenção universal.

O mais importante é que o profissional permaneça disponível para ouvir o que Marina realmente deseja comunicar.

O tato psicológico de Ferenczi e o momento de intervir

Em Elasticidade da técnica psicanalítica, de 1928, Ferenczi discute o tato psicológico, conceito relacionado à sensibilidade do analista para avaliar como e quando realizar suas intervenções.

Essa reflexão me parece especialmente importante nas situações em que o paciente demonstra receio, hesitação ou dificuldade para expressar sua posição.

Em determinados momentos, uma pergunta pode favorecer a investigação. Em outros, talvez seja necessário aguardar, acompanhar aquilo que está emergindo ou esclarecer uma intervenção anterior.

Porém, a elasticidade da técnica não significa abandonar o enquadre, nem permitir que o terapeuta atue sem limites.

A responsabilidade clínica continua orientando o processo.

Assim, precisamos considerar a singularidade do paciente, o momento do atendimento e os efeitos que nossas palavras podem produzir.

É justamente nesse encontro entre conhecimento, tato e responsabilidade que a segurança clínica começa a ganhar consistência.

O que o terapeuta deve evitar nessa situação?

Quando percebemos uma concordância constante, alguns cuidados merecem atenção.

  • Não presumir uma história traumática: a concordância, isoladamente, não revela acontecimentos específicos do passado.
  • Não interpretar toda resposta como submissão: uma mesma atitude pode ter diferentes significados.
  • Não pressionar o paciente a discordar: a discordância precisa ser possível, mas não deve se transformar em uma exigência.
  • Não considerar toda interpretação aceita como verdadeira: é importante acompanhar como ela repercute ao longo do processo.
  • Não abandonar o enquadre: acolhimento e elasticidade técnica precisam permanecer acompanhados de limites.

Além disso, quando uma situação desperta dúvidas importantes, a supervisão clínica pode oferecer um espaço valioso para discutir hipóteses e refletir sobre a condução do atendimento.

Como o Método RESSOMA se relaciona com essa reflexão?

Ao longo da minha experiência clínica e dos estudos sobre Freud, Ferenczi e outros autores, desenvolvi o Método RESSOMA, voltado ao aprofundamento da compreensão e do manejo dos traumas difíceis.

Uma das dimensões fundamentais desse percurso é o movimento de Reconhecer.

Reconhecer envolve escutar o sofrimento e os sentidos que a pessoa consegue apresentar, respeitando sua experiência e evitando interpretações fechadas.

Outro movimento relevante é a Maternagem simbólica, compreendida dentro do método como uma qualidade de sustentação afetiva acompanhada de previsibilidade, responsabilidade e limites profissionais.

Esses movimentos ajudam a pensar a importância de construir uma relação clínica em que o paciente encontre condições para se expressar.

Entretanto, os sete movimentos do RESSOMA representam uma organização clínica própria. Eles não devem ser confundidos com conceitos formulados diretamente por Ferenczi nem tratados como uma sequência rígida de sessões.

Para conhecer o percurso completo, você pode acessar a página do Método RESSOMA.

Uma pergunta para levar à supervisão

Quando um paciente concorda rapidamente com nossas intervenções, talvez seja importante considerar o que sabemos sobre a experiência dele naquela relação.

Por isso, quero deixar uma pergunta para sua reflexão:

Estou oferecendo espaço para que o paciente pense comigo ou estou esperando que ele confirme aquilo que já pensei?

Essa pergunta não precisa produzir uma resposta imediata.

Talvez ela nos ajude a observar com mais atenção o vínculo que construímos a cada encontro.

Afinal, a segurança clínica exige que permaneçamos capazes de reconhecer nossas hipóteses como provisórias e escutar aquilo que ainda não compreendemos.

Perguntas frequentes

Por que um paciente concorda com tudo na terapia?

Existem diferentes possibilidades. A concordância pode indicar compreensão e confiança, mas também pode estar relacionada ao receio de discordar, à dificuldade de expressar o próprio desconforto ou ao desejo de preservar a relação. O significado depende da história e do contexto clínico.

Concordar com o terapeuta significa que o paciente confia nele?

Não necessariamente. Embora a concordância possa expressar confiança, esse comportamento isolado não permite avaliar a qualidade do vínculo terapêutico. É importante considerar outros elementos da relação e a experiência comunicada pelo paciente.

A concordância constante pode ser identificação com o agressor?

A identificação com o agressor é um conceito complexo da teoria de Ferenczi. A concordância constante, por si só, não permite afirmar que esse processo esteja presente. Qualquer hipótese desse tipo exige investigação clínica cuidadosa.

Como saber se o paciente se sente seguro na terapia?

A segurança clínica deve ser acompanhada ao longo do processo, observando o vínculo, a comunicação, os limites e a possibilidade de expressar necessidades, dúvidas e discordâncias. Nenhuma resposta isolada comprova que a relação seja segura.

O que Ferenczi dizia sobre a postura do analista?

Ferenczi destacou a importância do tato psicológico, da elasticidade da técnica e da atenção aos efeitos da participação do analista na relação terapêutica. Essas contribuições seguem relevantes para a reflexão sobre o manejo dos casos difíceis.

Continue esse estudo comigo na Jornada da Segurança Clínica

Amores, quero convidar você a continuar essa reflexão comigo.

Na Jornada da Segurança Clínica, vamos estudar as contribuições de Sándor Ferenczi para compreender situações que desafiam nossa escuta e nos fazem pensar sobre o lugar do terapeuta.

Ao longo dos encontros, vamos conversar sobre o vínculo, o silêncio, as manifestações do trauma, o tempo das intervenções e a responsabilidade de quem acompanha pessoas em sofrimento.

Será uma oportunidade de aprofundar essas questões por meio de uma jornada gratuita de estudos, especialmente voltada a terapeutas que desejam compreender melhor os casos difíceis.

Espero encontrar você por lá!

PARTICIPE GRATUITAMENTE DA JORNADA

Com carinho,

Dra. Sandra Barilli

Referências e leituras para aprofundar

FERENCZI, Sándor. Elasticidade da técnica psicanalítica (1928). In: Obras completas, Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes.

FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933). In: Obras completas, Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes.

SAFRAN, J. D.; MURAN, J. C. Negotiating the Therapeutic Alliance: A Relational Treatment Guide. New York: Guilford Press, 2000.

EUBANKS, C. F.; MURAN, J. C.; SAFRAN, J. D. Alliance rupture repair: A meta-analysis. Psychotherapy, 2018. Consultar estudo.

FERENCZI E A EXPERIÊNCIA DA EINFÜHLUNG. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica. Consultar artigo acadêmico.

Sobre a autora

Dra. Sandra Barilli é psicóloga, psicanalista, pedagoga e doutora em Psicologia. Dedica sua atuação clínica e acadêmica ao estudo dos traumas da infância e suas repercussões na vida adulta, especialmente o trauma do abuso sexual infantil.

É fundadora do Instituto Barilli e criadora do Método RESSOMA, fundamentado em contribuições de Freud, Ferenczi, David Maldavsky e outros autores dedicados à compreensão do sofrimento psíquico.

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