Medo de errar na terapia: insegurança clínica e supervisão

Por Dra. Sandra Barilli | Instituto Barilli

Você já terminou um atendimento e continuou pensando no que disse? Talvez tenha se perguntado se interpretou cedo demais, se deveria ter esperado um pouco mais ou se o silêncio teria sido mais cuidadoso naquele momento.

Essas perguntas aparecem na trajetória de muitos terapeutas, inclusive daqueles que estudam e atendem há anos. Na clínica do trauma, elas merecem atenção especial. O sofrimento pode se apresentar de formas difíceis de nomear, e uma intervenção bem-intencionada nem sempre produz o efeito que imaginávamos.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer a própria responsabilidade e ficar paralisado pelo medo de errar. É sobre essa diferença que quero conversar com você.

O medo de errar pode revelar compromisso com o paciente

Quando um terapeuta se pergunta sobre o impacto de suas palavras, demonstra que compreende a seriedade do encontro clínico. A pessoa que chega ao consultório confia ao profissional aspectos da própria história que, muitas vezes, ainda não conseguiu compartilhar com ninguém.

Na clínica do trauma, esse cuidado inclui respeitar o ritmo do paciente, evitar conclusões precipitadas e reconhecer que nem tudo o que aparece na sessão pode ser compreendido imediatamente.

O problema começa quando a preocupação em acertar transforma cada encontro em uma prova de desempenho. O terapeuta passa a buscar uma resposta perfeita, hesita diante de qualquer imprevisto e pode deixar de escutar aquilo que está acontecendo na relação.

Segurança clínica não significa nunca ter dúvidas. Significa desenvolver recursos para pensar sobre elas, sustentar limites e escolher intervenções com responsabilidade.

Quando a necessidade de acertar atrapalha a escuta

Imagine uma situação fictícia: durante a sessão, uma paciente conta uma experiência dolorosa e, logo depois, afirma que “não foi nada demais”. O terapeuta percebe uma contradição entre o relato e a forma como ela tenta minimizar o sofrimento.

O que fazer? Interpretar imediatamente? Perguntar por que ela diminui a própria dor? Permanecer em silêncio?

Não existe uma frase que sirva para todos os pacientes. Antes de decidir, precisamos considerar o vínculo construído, o momento da análise, os sinais de sofrimento e a possibilidade de a pessoa discordar daquilo que estamos propondo.

Uma interpretação pode ser teoricamente consistente e, ainda assim, chegar em um momento em que o paciente não consegue recebê-la. Também é possível que a nossa hipótese esteja incompleta. É por isso que precisamos distinguir o que observamos daquilo que supomos.

Se a preocupação maior do terapeuta é demonstrar que sabe, corre o risco de ocupar o espaço que deveria permanecer aberto para a experiência singular do paciente.

O que a leitura de Ferenczi acrescenta a essa reflexão?

Sándor Ferenczi nos convida a examinar a posição do analista diante do sofrimento, especialmente nas situações em que a confiança do paciente foi profundamente ferida. Em sua reflexão sobre a elasticidade da técnica psicanalítica, o tato clínico ganha importância: não basta conhecer um conceito, é preciso pensar como, quando e se uma intervenção faz sentido naquela relação.

Na minha leitura de Ferenczi, isso exige que o terapeuta permaneça atento ao efeito de suas palavras. A pessoa se sentiu compreendida? Conseguiu dizer que discordava? Ficou mais retraída? A sessão abriu possibilidades de elaboração ou fechou uma conversa que ainda estava começando?

Essas perguntas não oferecem garantias, mas ajudam a construir uma prática menos automática. A flexibilidade de que falamos também não significa ausência de enquadre. Horários, sigilo, limites e responsabilidades continuam protegendo o processo terapêutico.

Para aprofundar essa relação entre teoria, vínculo e manejo, recomendo também a leitura do artigo Segurança clínica, Ferenczi e a clínica do trauma.

Responsabilidade ética é diferente de paralisia

Ter responsabilidade ética é reconhecer os limites do próprio conhecimento, trabalhar dentro das competências profissionais, respeitar o paciente e buscar apoio quando necessário. Também é saber que determinadas situações exigem avaliação cuidadosa, articulação com outros profissionais ou encaminhamento.

A paralisia, por outro lado, pode aparecer quando o terapeuta acredita que precisa compreender tudo antes de responder, que nenhuma intervenção pode falhar ou que admitir uma dúvida colocará sua autoridade em risco.

O compromisso clínico não exige onisciência. Exige disposição para investigar, rever hipóteses e assumir a responsabilidade pelas escolhas feitas.

Se uma intervenção pareceu inadequada, é importante observar seus efeitos e, quando pertinente, conversar sobre isso com o paciente de forma cuidadosa, sem transferir para ele a tarefa de tranquilizar o profissional. Reconhecer um equívoco pode contribuir para o trabalho clínico, mas não substitui a avaliação de seus possíveis impactos.

Por que a análise pessoal continua sendo tão importante?

Em alguns momentos, as reações do paciente mobilizam questões do próprio terapeuta. Uma crítica pode despertar um medo intenso de rejeição. O silêncio pode ser vivido como fracasso. Uma história de violência pode produzir sentimentos de impotência, indignação ou urgência para resolver o sofrimento do outro.

Essas reações não devem ser ignoradas, tampouco tomadas como explicação definitiva do que se passa com o paciente. Elas precisam de um espaço próprio de elaboração.

A análise pessoal ajuda o terapeuta a reconhecer aspectos da sua história, seus conflitos e os pontos em que pode ter dificuldade para sustentar a escuta. Não é um caminho para se tornar uma pessoa sem afetos, mas um compromisso contínuo com a possibilidade de não colocar as próprias necessidades no centro do atendimento.

Esse cuidado se relaciona à contratransferência na clínica do trauma, especialmente quando o medo e a impotência se tornam intensos.

Supervisão psicanalítica: um espaço para pensar o que a sessão deixou em aberto

Talvez você já tenha saído de uma sessão com a impressão de que alguma coisa importante aconteceu, mas ainda não encontrou palavras para compreender o que foi. É justamente nesse tipo de impasse que a supervisão clínica pode oferecer uma contribuição valiosa.

Na supervisão, o objetivo não é encontrar alguém que distribua respostas prontas ou julgue o desempenho do terapeuta. O trabalho consiste em examinar o material clínico com rigor, formular perguntas, diferenciar observações de interpretações e considerar outras possibilidades de manejo.

Uma boa discussão pode começar por questões simples: o que o paciente efetivamente disse? O que eu senti naquele momento? Qual hipótese construí? O que ainda não sei? Como posso acompanhar o efeito de uma intervenção sem concluir antecipadamente por ele?

O relato deve preservar o sigilo e a identidade da pessoa atendida, conforme as normas profissionais aplicáveis. Em casos que envolvam risco, a supervisão complementa, mas não substitui as providências clínicas e de proteção necessárias.

O terapeuta não precisa carregar cada dúvida sozinho. Precisa construir uma prática em que suas dúvidas possam ser estudadas com seriedade.

Segurança clínica é uma construção contínua

Eu gosto de lembrar aos meus alunos que o estudo nunca termina. Quanto mais nos aproximamos da complexidade humana, mais percebemos a importância de escutar antes de concluir.

Na clínica do trauma, essa disposição é especialmente necessária. O paciente pode não conseguir falar de determinada experiência, pode concordar quando gostaria de discordar ou pode expressar seu sofrimento de maneira indireta. Nossa tarefa é acompanhar aquilo que se apresenta, sem reduzir uma pessoa à hipótese que formulamos sobre ela.

Teoria, análise pessoal, supervisão e reflexão ética caminham juntas. Elas não eliminam completamente a insegurança, mas ajudam a transformá-la em investigação, cuidado e amadurecimento clínico.

Se você também já saiu de uma sessão se perguntando se poderia ter feito algo diferente, talvez essa pergunta mereça menos julgamento e mais estudo.

Continue essa reflexão na Jornada da Segurança Clínica

Na Jornada da Segurança Clínica, estamos aprofundando a leitura de Ferenczi e discutindo os desafios que surgem no atendimento de pacientes com histórias de trauma. A proposta é aproximar os conceitos da prática e pensar, juntos, o que sustenta uma escuta responsável.

Você pode acompanhar os encontros gratuitos e conhecer as reflexões clínicas conduzidas pela Dra. Sandra Barilli, incluindo os estudos relacionados ao Método RESSOMA.

Acesse a Jornada da Segurança Clínica e continue seus estudos.

Sobre a autora

Dra. Sandra Barilli é psicóloga, psicanalista, pedagoga e doutora em Psicologia. Dedica sua atuação clínica e acadêmica ao estudo dos traumas da infância e suas repercussões na vida adulta, com especial atenção ao trauma do abuso sexual infantil.

É fundadora do Instituto Barilli e criadora do Método RESSOMA, fundamentado em contribuições de Freud, Ferenczi, David Maldavsky e outros autores dedicados à compreensão do sofrimento psíquico.

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