Trauma ASI: quando a infância termina, mas o trauma permanece
Há experiências que pertencem ao passado cronológico, mas continuam acontecendo psiquicamente no presente.
O abuso sexual na infância pode terminar. A criança cresce. Os anos passam. A vida aparentemente segue.
Mas aquilo que não pôde ser compreendido, nomeado e elaborado pode continuar encontrando outras maneiras de existir.
Às vezes, aparece na dificuldade de confiar.
Em outras, na culpa que a pessoa não consegue explicar.
Pode aparecer no corpo, na sexualidade, na escolha dos relacionamentos, no medo de estabelecer limites ou até em uma sensação persistente de não saber exatamente quem se é.
É por isso que compreender o trauma ASI — trauma decorrente do abus0 s e x u @ l na infância — exige olhar para muito além da lembrança do acontecimento.
Para Sándor Ferenczi, um dos autores fundamentais para a compreensão psicanalítica do trauma, o que está em jogo é uma ruptura muito mais profunda: a violência atinge a própria possibilidade da criança de confiar no outro e, em determinadas situações, de confiar em sua própria percepção da realidade. Essa perspectiva está no centro da compreensão do trauma utilizada pelo Instituto Barilli.
E é justamente por isso que as consequências podem atravessar décadas.
O que acontece com o psiquismo de uma criança diante do abuso?
Antes de pensarmos nas consequências adultas, precisamos compreender algo fundamental.
Uma criança não recebe a experiência do abuso com os recursos psíquicos de um adulto.
Ferenczi desenvolveu uma das ideias mais importantes para compreender esse fenômeno: a confusão de línguas entre o adulto e a criança.
A criança se aproxima do adulto a partir daquilo que Ferenczi chamou de linguagem da ternura: busca cuidado, afeto, proteção, reconhecimento.
No abuso, o adulto responde a essa ternura a partir de outro registro, sexualizando uma relação que a criança não possui recursos para compreender.
Há, portanto, uma ruptura.
O que deveria ser cuidado torna-se invasão.
O que deveria significar proteção torna-se ameaça.
E aquele que deveria ajudar a criança a compreender o mundo pode ser justamente quem desorganiza suas referências.
É nesse ponto que podemos começar a compreender por que o trauma ASI não produz apenas uma memória dolorosa.
Ele pode modificar a maneira como o sujeito passa a se relacionar consigo mesmo e com o outro.
1. A culpa pode permanecer mesmo quando racionalmente a vítima sabe que não foi culpada
Uma das consequências mais complexas do trauma de abuso sexual infantil é a culpa.
Para quem observa de fora, isso pode parecer contraditório:
por que alguém sentiria culpa por uma violência que sofreu?
Ferenczi nos ajuda a compreender que a lógica traumática não é organizada da mesma maneira que a lógica racional do adulto.
Diante de uma situação impossível de dominar, a criança pode internalizar elementos da relação com o agressor. A culpa, então, pode deslocar-se de quem praticou a violência para quem a sofreu.
Anos depois, essa organização pode aparecer de maneiras muito menos óbvias:
- autocobrança excessiva;
- sensação constante de estar fazendo algo errado;
- dificuldade para receber cuidado;
- vergonha;
- autopunição;
- dificuldade de estabelecer limites;
- sensação de não merecimento;
- responsabilização excessiva pelo comportamento dos outros.
O adulto pode não pensar conscientemente “eu fui culpado pelo abuso”.
Mas pode viver como alguém que precisa continuamente pagar por uma culpa que nunca lhe pertenceu.
Os materiais clínicos do Instituto Barilli relacionam essa introjeção da culpa à identificação com o agressor e mostram como ela pode repercutir em autopunição, vergonha e dificuldades de autonomia.
2. A dificuldade de estabelecer limites pode ter raízes muito antigas
Dizer “não” parece simples quando pensamos apenas na palavra.
Psiquicamente, entretanto, estabelecer um limite significa reconhecer:
eu existo separado de você.
Meu corpo possui fronteiras.
Meu desejo não precisa coincidir com o seu.
Eu posso recusar sem deixar de merecer amor.
No trauma ASI, justamente essas fronteiras podem ter sido violentamente atravessadas.
Por isso, alguns adultos podem apresentar dificuldades importantes para perceber quando estão desconfortáveis, recusar determinadas situações ou sustentar os próprios limites diante do outro.
Na perspectiva ferencziana, isso não deve ser reduzido a “falta de autoestima” ou “dificuldade de posicionamento”.
É preciso perguntar:
o que aconteceu na história desse sujeito para que proteger a si mesmo tenha se tornado tão difícil?
Essa mudança de pergunta é fundamental para a clínica do trauma.
3. Amor e violência podem se tornar psiquicamente confundidos
Talvez uma das marcas mais profundas do trauma ASI esteja justamente nos vínculos.
Quando a violência ocorre dentro de uma relação que também deveria oferecer afeto, proteção ou confiança, uma associação profundamente dolorosa pode se formar.
A mesma pessoa que cuida pode ferir.
A mesma pessoa que demonstra afeto pode invadir.
A mesma relação que deveria proteger pode ameaçar.
É justamente aqui que a confusão de línguas de Ferenczi ganha enorme importância clínica.
A criança pode ter dificuldade para separar aquilo que pertence ao campo da ternura daquilo que pertence ao campo da violência.
Na vida adulta, isso pode repercutir na maneira como o sujeito reconhece — ou deixa de reconhecer — relações abusivas.
Não significa que uma pessoa traumatizada “procura sofrer”.
Significa que determinadas formas de vínculo podem ter se tornado psiquicamente familiares muito antes de ela possuir condições para compreendê-las.
Essa diferença é fundamental.
Porque retira a clínica do julgamento e a coloca no campo da compreensão.
4. O trauma pode aparecer como repetição
Freud já havia chamado atenção para a compulsão à repetição.
O sujeito nem sempre recorda aquilo que aconteceu de maneira organizada. Muitas vezes, ele repete.
Repete posições.
Repete afetos.
Repete determinadas formas de vínculo.
Repete algo que ainda não conseguiu transformar em palavra.
Na clínica do trauma ASI, isso exige enorme cuidado.
Uma pessoa pode entrar repetidamente em relações nas quais se sente diminuída, abandonada, invadida ou desconsiderada.
A leitura superficial poderia perguntar:
“Por que ela escolhe sempre a mesma coisa?”
A escuta psicanalítica precisa formular outra pergunta:
“O que está sendo repetido aqui que ainda não pôde ser elaborado?”
Essa diferença muda completamente a posição do terapeuta.
5. A dissociação pode ter sido uma forma de sobrevivência
Quando uma experiência ultrapassa aquilo que o psiquismo consegue suportar, uma das possibilidades defensivas é a dissociação.
Em vez de integrar plenamente aquilo que está acontecendo, o psiquismo pode fragmentar aspectos da experiência.
Ferenczi dedicou especial atenção a esses processos de clivagem e fragmentação diante do trauma.
O que muitas vezes é percebido posteriormente como uma “falha” pode ter sido, naquele momento, uma solução psíquica possível diante do insuportável.
Na vida adulta, isso pode aparecer como:
- dificuldade de acessar determinadas lembranças;
- sensação de distanciamento de si;
- dificuldade para nomear afetos;
- experiências de estranhamento;
- lacunas importantes da própria história;
- desconexão entre aquilo que a pessoa relata e aquilo que sente;
- sensação de funcionar “automaticamente” em determinadas situações.
Para o terapeuta, compreender isso é decisivo.
A defesa não deve ser violentamente arrancada do paciente.
Se ela surgiu para protegê-lo, a clínica precisa primeiro construir condições suficientemente seguras para que ele possa, pouco a pouco, prescindir dela.
6. O corpo pode carregar aquilo que ainda não encontrou palavras
Nem todo trauma chega ao consultório como narrativa.
Às vezes, chega como corpo.
Tensão.
Taquicardia.
Mal-estar.
Paralisação.
Sensações difíceis de nomear.
Reações intensas diante de situações aparentemente pequenas.
No trabalho clínico desenvolvido pelo Instituto Barilli, essa dimensão ocupa uma posição importante: o corpo pode tornar-se palco de um sofrimento que ainda não encontrou representação simbólica.
Isso também explica por que perguntar apenas “o que aconteceu?” pode ser insuficiente.
Na clínica do trauma, precisamos aprender a perguntar:
“Como essa história continua acontecendo neste sujeito?”
E parte dessa resposta pode estar no corpo.
No Método RESSOMA, essa compreensão aparece explicitamente no movimento Escutar o corpo — o corpo como linguagem do indizível.
7. A confiança pode se tornar uma experiência perigosa
Existe ainda uma consequência menos evidente.
Para algumas pessoas, confiar pode ser ameaçador.
Isso porque a primeira grande ruptura não aconteceu necessariamente diante de um desconhecido.
Muitas experiências traumáticas acontecem justamente em relações nas quais deveria existir proteção.
Assim, aproximar-se emocionalmente de alguém pode mobilizar simultaneamente desejo e medo.
A pessoa quer vínculo, mas teme o que pode acontecer quando baixar suas defesas.
Quer ser cuidada, mas desconfia do cuidado.
Quer proximidade, mas pode afastar-se justamente quando a relação começa a se tornar significativa.
Ferenczi nos obriga a olhar para essas contradições sem classificá-las rapidamente como resistência.
Às vezes, desconfiar foi uma maneira de sobreviver.
E a clínica não pode exigir confiança antes de se tornar digna dela.
8. O trauma também pode atingir a relação do sujeito consigo mesmo
Talvez uma das consequências mais profundas seja esta:
o trauma pode modificar a maneira como a pessoa se percebe.
Quando uma criança é invadida, silenciada, desacreditada ou responsabilizada por aquilo que sofreu, não é apenas sua relação com o agressor que é afetada.
Sua própria percepção pode ser colocada em dúvida.
“Será que aconteceu mesmo?”
“Será que estou exagerando?”
“Será que eu provoquei?”
“Será que tenho direito de sentir isso?”
“Será que o problema sou eu?”
É aqui que encontramos uma das contribuições mais preciosas de Ferenczi para a clínica contemporânea: o trauma não diz respeito apenas à violência sofrida, mas também àquilo que acontece quando a experiência do sujeito é desautorizada.
Por isso, escutar um paciente traumatizado não significa apenas encontrar sintomas.
Significa ajudá-lo, gradativamente, a recuperar a possibilidade de reconhecer a própria experiência.
Para o terapeuta: o maior risco é querer chegar ao trauma rápido demais
Quando começamos a compreender todas essas consequências, surge uma tentação clínica perigosa:
encontrar o trauma por trás de tudo.
O terapeuta percebe os sinais, formula hipóteses e pode sentir vontade de chegar rapidamente à origem.
Mas saber sobre trauma não nos autoriza a antecipar a história do paciente.
Pelo contrário.
Quanto maior o conhecimento do terapeuta, maior precisa ser seu cuidado para que esse conhecimento não se sobreponha à singularidade de quem está diante dele.
Essa é uma ideia recorrente no ensino clínico da Dra. Sandra Barilli: cada paciente é único, e o conhecimento acumulado pelo analista não pode anular aquilo que emerge daquela pessoa específica.
Na clínica do trauma, não basta interpretar corretamente. É preciso saber quando, como e se aquela interpretação pode ser sustentada pelo paciente naquele momento.
É justamente nesse ponto que a elasticidade técnica de Ferenczi permanece tão atual.
A clínica não deve repetir a violência da história
Existe uma reflexão que considero fundamental:
Se o trauma ASI envolveu invasão, silenciamento, desautorização e perda de controle, uma clínica invasiva pode repetir exatamente a lógica que pretende tratar.
Pressionar para lembrar.
Interpretar antes da hora.
Duvidar.
Exigir uma narrativa organizada.
Forçar associações.
Reduzir toda a história do sujeito ao abuso.
Tudo isso pode transformar o espaço terapêutico em mais um lugar no qual alguém decide pelo paciente o que ele deve sentir, lembrar ou compreender.
Ferenczi aponta para outra direção.
Uma clínica capaz de oferecer presença, reconhecimento, elasticidade e segurança suficientes para que aquilo que precisou ser fragmentado possa, no tempo do sujeito, encontrar possibilidade de simbolização.
É por isso que trabalhar com trauma exige mais do que conhecer o trauma.
Exige aprender a escutá-lo.
O passado não permanece apenas como lembrança
Perguntar quais são as consequências do trauma ASI na vida adulta não significa construir uma lista de sintomas que todas as vítimas apresentarão.
Cada história produz organizações singulares.
Mas Ferenczi nos ajuda a perceber algo fundamental: uma experiência traumática precoce pode permanecer não apenas como lembrança, mas na forma como o sujeito sente, se defende, estabelece vínculos, habita o próprio corpo e reconhece a si mesmo.
Culpa, dissociação, repetição, dificuldade de estabelecer limites, conflitos nos vínculos e desconexão do próprio corpo não devem ser vistos isoladamente.
Na clínica do trauma, precisamos perguntar qual história essas manifestações estão tentando contar.
E talvez uma das tarefas mais importantes do processo terapêutico seja justamente oferecer aquilo que faltou quando o trauma aconteceu:
um outro capaz de escutar sem invadir, reconhecer sem julgar e permanecer sem abandonar.
Não para apagar o que aconteceu.
Mas para que o passado deixe, pouco a pouco, de determinar silenciosamente o presente.
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