Quando o paciente não consegue falar sobre o trauma: o que o terapeuta deve observar?

Há momentos na clínica que sempre me fazem pensar sobre os limites da palavra.

O paciente chega à sessão. Senta-se diante de nós. Percebemos que existe algo que deseja emergir, mas ele simplesmente não consegue falar.

Há sofrimento. Há angústia. Às vezes o corpo muda, a respiração se altera, o olhar se desvia. Mas as palavras não chegam.

E é justamente nesses momentos que considero fundamental lembrarmos de algo:

O fato de o paciente não conseguir falar não significa que ele não esteja comunicando.

Talvez a pergunta mais importante para nós, terapeutas, não seja:

“Como fazer esse paciente falar?”

Mas:

“O que esse paciente já está me dizendo enquanto ainda não consegue colocar sua dor em palavras?”

Na clínica psicanalítica do trauma, a ausência de palavras não significa ausência de conteúdo psíquico.

Muitas vezes, estamos justamente diante de uma experiência que ainda não encontrou condições para ser representada pela palavra.

E, nesses casos, nossa escuta precisa se ampliar.


Por que algumas experiências traumáticas são tão difíceis de colocar em palavras?

Quando trabalho com trauma, gosto de lembrar aos meus alunos que não podemos pensar uma experiência traumática apenas como uma história difícil que o paciente ainda não contou.

Essa compreensão seria simplista.

Há experiências que, no momento em que aconteceram, ultrapassaram os recursos psíquicos disponíveis ao sujeito para compreendê-las, organizá-las e elaborá-las.

Por isso, alguns pacientes chegam à vida adulta dizendo:

“Eu não lembro.”

“Não sei explicar.”

“Parece que minha infância não existiu.”

“Eu sei que aconteceu, mas não consigo falar.”

“Quando tento lembrar, meu corpo fica estranho.”

Precisamos escutar essas frases com muito cuidado.

No Método RESSOMA, trabalho justamente com a compreensão de que o inconsciente não se manifesta apenas por aquilo que o paciente consegue narrar diretamente.

Ele pode aparecer no corpo que trava, no assunto que nunca chega, nas metáforas, nos comportamentos, nos sintomas e nas repetições.

Por isso, uma das competências que considero fundamentais para quem trabalha com a clínica do trauma é aprender a escutar além da narrativa organizada.


1. Quando faltam palavras, observe o corpo

Às vezes, o paciente diz:

“Está tudo bem.”

Mas suas mãos começam a tremer.

A respiração muda.

O corpo se contrai.

Ele desvia o olhar.

Surge uma náusea, um aperto no peito, uma tensão muscular ou uma sensação que ele próprio não consegue explicar.

Isso não significa que devemos transformar o corpo em uma espécie de “detector da verdade”.

Também não podemos concluir que determinada reação corporal comprova a existência de um trauma específico.

Esse seria um erro clínico importante.

Mas o corpo faz parte da escuta.

No RESSOMA, uma das ideias que desenvolvo é justamente esta:

o corpo pode ressoar aquilo que o psiquismo ainda não conseguiu dizer.

Sintomas e sensações podem aparecer como formas de expressão de experiências que ainda não encontraram linguagem.

Por isso, diante de um paciente que não consegue falar, observo também:

  • mudanças na respiração;
  • alterações no tônus corporal;
  • tensões que aparecem diante de determinados assuntos;
  • sensações relatadas pelo paciente;
  • alterações bruscas de estado afetivo;
  • recorrência de sintomas em determinados contextos;
  • momentos em que a fala parece desconectada da experiência corporal.

Não para concluir precipitadamente:

“Aqui está o trauma.”

Mas para continuar perguntando:

“O que está acontecendo com este sujeito neste momento?”


2. Observe aquilo que o paciente repete

Freud nos oferece uma chave muito importante em Recordar, repetir e elaborar.

Nem tudo aquilo que o sujeito não consegue recordar retorna inicialmente como lembrança.

Às vezes, retorna como repetição.

Um paciente pode não conseguir falar sobre abandono, mas construir relações continuamente atravessadas pelo medo de ser deixado.

Pode não conseguir nomear uma experiência de violência, mas se colocar repetidamente em vínculos nos quais seus limites desaparecem.

Pode afirmar que não confia em ninguém sem conseguir compreender por que qualquer aproximação afetiva é experimentada como ameaça.

Nas minhas aulas, costumo chamar atenção para isso:

quando recordar ainda não é possível, algo pode reaparecer como ação, afeto e repetição.

E isso muda muito a nossa escuta.

O objetivo clínico não pode ser simplesmente “encontrar a memória”.

Precisamos possibilitar que aquilo que antes aparecia apenas como vivência corporal, afetiva ou repetitiva encontre, gradualmente, possibilidade de representação.

Por isso, quando a história ainda não aparece, observe aquilo que insiste em retornar.


3. Observe como esse paciente se relaciona com você

Esse é um ponto que considero especialmente importante.

Muitas vezes, aquilo que o paciente ainda não consegue contar sobre sua história começa a aparecer na própria relação terapêutica.

Imagine um paciente que diz:

“Eu sei que você não vai me julgar.”

Mas passa semanas escolhendo cuidadosamente cada palavra.

Outro pede ajuda, mas, sempre que nos aproximamos de determinado conteúdo, afasta-se.

Outro testa repetidamente se continuaremos disponíveis.

Outro parece esperar que, a qualquer momento, façamos alguma coisa que confirme que não somos dignos de confiança.

O que está acontecendo?

Precisamos pensar na transferência.

Nas minhas aulas do RESSOMA, utilizo justamente um exemplo semelhante.

Posso demonstrar inúmeras vezes ao paciente que aquele é um espaço seguro e, ainda assim, ele continuar esperando julgamento.

Se eu tomar isso pessoalmente, posso pensar:

“Mas por que ele ainda não confia em mim?”

Essa não é a pergunta que mais me interessa.

Prefiro pensar:

“O que aconteceu com esse sujeito para que confiar em alguém tenha se tornado tão perigoso?”

Talvez eu esteja ocupando, transferencialmente, o lugar de alguém diante de quem confiar já significou correr algum risco.

E percebam como isso modifica nossa posição clínica.

Em vez de exigir confiança, começamos a compreender a impossibilidade de confiar.


4. Observe o silêncio — mas não tenha pressa de preenchê-lo

Nem todo silêncio significa a mesma coisa.

Existe o silêncio de quem está pensando.

O silêncio de quem está sentindo.

O silêncio defensivo.

O silêncio de quem teme ser julgado.

E existe também aquele momento em que parece simplesmente não haver palavra disponível.

O problema começa quando o nosso desconforto como terapeutas diante do silêncio nos leva a acelerar o processo.

Perguntamos mais.

Interpretamos mais.

Tentamos encontrar a causa.

Tentamos preencher aquele espaço.

E talvez seja justamente o contrário do que o paciente necessita naquele momento.

É aqui que Ferenczi se torna tão precioso para pensarmos a clínica do trauma.

Há uma orientação dele que considero fundamental e que repito frequentemente aos meus alunos:

não tenha pressa.

Cada sujeito precisa de seu tempo.

Para que uma pessoa possa recordar de maneira segura, precisa existir sustentação suficiente para que ela consiga se aproximar daquilo que, durante muito tempo, precisou permanecer afastado.

Há silêncios que não precisam ser imediatamente quebrados.

Precisam primeiro encontrar um lugar onde possam existir.


5. Observe aquilo que “nunca chega” à sessão

Há pacientes que conseguem falar durante cinquenta minutos.

Contam sobre o trabalho.

Sobre o casamento.

Sobre os filhos.

Sobre o que aconteceu durante a semana.

Mas, quando determinados assuntos começam a aparecer, algo acontece.

A conversa muda.

Uma lembrança começa e é interrompida.

Uma experiência dolorosa é narrada com enorme riqueza factual, mas quase sem afeto.

Ou existe um período inteiro da história do paciente que simplesmente não aparece.

Isso também é material clínico.

Não estou dizendo que devemos interpretar imediatamente cada mudança de assunto como resistência ou cada lacuna de memória como evidência de trauma.

Não devemos.

Mas precisamos perceber os movimentos da sessão.

Há uma pergunta que considero muito rica para o terapeuta:

“O que consegue ser dito aqui e o que ainda não consegue existir entre nós?”

Porque, às vezes, antes de escutarmos diretamente a história do trauma, começamos a perceber os contornos que foram construídos ao redor dela.


6. Observe sonhos, metáforas e palavras emprestadas

A experiência traumática nem sempre aparece primeiro como relato autobiográfico.

Pode aparecer como imagem.

Como sonho.

Como associação.

Como metáfora.

Como história de outra pessoa que toca profundamente o paciente.

Lembro-me de uma paciente que acompanhei e que gostava muito de ler livros nos quais as pessoas narravam experiências extremas de sofrimento.

Histórias de guerra, perseguição e dor.

Ela lia tanto que chegava a decorar alguns trechos.

Com o avanço do processo terapêutico, começou a compreender algo muito importante:

aquelas pessoas conseguiam colocar em palavras uma dor que existia dentro dela, mas para a qual ela própria ainda não possuía palavras.

Ao repetir aquelas narrativas, algo também podia sair dela.

Essa experiência clínica sempre me faz pensar:

às vezes, antes de encontrar suas próprias palavras, o paciente encontra palavras emprestadas.

Cabe a nós saber escutá-las.


7. Antes de perguntar por que ele não fala, pergunte se existe segurança para falar

Talvez este seja um dos pontos mais importantes deste texto.

Quando o paciente não fala, podemos rapidamente pensar:

“Ele está resistindo.”

Mas quero propor outra pergunta:

“O que ainda precisa acontecer nesta relação para que falar se torne suportável?”

Ferenczi nos ajuda muito a compreender essa dimensão.

Especialmente nos traumas que acontecem dentro de relações nas quais deveria existir cuidado, proteção e confiança, algo muito profundo pode ser rompido.

O sujeito não aprende apenas que determinada pessoa foi perigosa.

Em algumas histórias, ele aprende que aproximar-se pode ser perigoso.

Confiar pode ser perigoso.

Depender pode ser perigoso.

Entregar-se afetivamente pode ser perigoso.

Depois de experiências assim, confiar novamente não é um gesto simples.

E muito menos confiar a alguém aquilo que foi mantido em silêncio durante anos.

É por isso que considero o vínculo tão importante na clínica do trauma.

O vínculo não é uma preparação para que posteriormente o verdadeiro trabalho terapêutico comece.

O vínculo já é parte do trabalho terapêutico.


8. O terapeuta precisa suportar não saber

Existe uma tentação clínica sobre a qual quero chamar bastante atenção.

Quando começamos a estudar trauma, adquirimos repertório.

Aprendemos sobre dissociação.

Recalque.

Repetição.

Transferência.

Somatização.

Defesas.

E esse conhecimento é indispensável.

Mas existe um risco:

começarmos a enxergar aquilo que estudamos antes de enxergarmos o paciente.

O terapeuta percebe lacunas de memória, sintomas, reações corporais e determinados padrões relacionais e pode rapidamente construir uma hipótese sobre o que aconteceu.

Mas hipótese não é memória.

Sintoma não é prova.

Reação corporal não comprova um acontecimento específico.

Precisamos ter muito cuidado para não sugerir experiências que o paciente não relatou ou induzir uma determinada narrativa.

Principalmente quando estamos diante de suspeitas de abuso ou violência.

Há algo que considero fundamental na formação clínica:

quanto mais sabemos, mais precisamos aprender a sustentar aquilo que ainda não sabemos.

Nosso conhecimento deve ampliar nossa capacidade de escutar.

Nunca substituir a história singular do paciente.


9. Fazer o paciente lembrar não é o objetivo da clínica do trauma

Esse ponto merece destaque.

Quando um paciente apresenta grandes lacunas de memória, é compreensível que surja a curiosidade:

“O que aconteceu?”

Mas a clínica não é uma investigação policial da memória.

Não estamos ali para descobrir uma verdade escondida a qualquer custo.

Estamos trabalhando com um sujeito.

Com suas defesas.

Com seu corpo.

Com seus afetos.

Com suas relações.

Com aquilo que consegue simbolizar naquele momento.

Freud nos apresenta o movimento de recordar, repetir e elaborar, mas Ferenczi nos lembra da necessidade de respeitar profundamente as condições psíquicas daquele que está diante de nós.

Por isso, considero perigoso quando a lembrança se transforma em uma espécie de meta terapêutica.

Não precisamos arrancar uma memória para que exista elaboração.

Precisamos construir condições para que aquilo que hoje invade o sujeito possa, gradualmente, encontrar algum sentido.


Então, o que fazer quando o paciente não consegue falar sobre o trauma?

Talvez minha resposta pareça simples:

continue escutando.

Mas amplie sua ideia de escuta.

Escute o corpo sem transformá-lo em diagnóstico.

Escute a repetição sem precipitar uma interpretação.

Escute a transferência sem tomá-la pessoalmente.

Escute aquilo que muda de assunto.

Escute os sonhos.

Escute as metáforas.

Escute as palavras emprestadas.

Escute aquilo que sempre aparece.

E também aquilo que nunca aparece.

Escute o silêncio.

E, sobretudo, observe se existe vínculo suficiente para que aquele sujeito consiga se aproximar da própria experiência sem sentir que será novamente invadido, desacreditado ou abandonado.

Isso exige de nós uma posição muito diferente daquela de quem tenta arrancar uma verdade escondida.

Exige presença.

Paciência.

Conhecimento técnico.

E exige algo que considero particularmente difícil na nossa profissão:

a capacidade de permanecer ao lado do paciente mesmo quando ainda não existem respostas.


Quando a palavra finalmente aparece

Existe uma diferença enorme entre fazer alguém falar e criar condições para que alguém possa falar.

Essa diferença é central na clínica do trauma.

Quando aquilo que antes aparecia apenas como sensação, repetição, sintoma, sonho, gesto ou silêncio começa a encontrar representação, alguma coisa pode começar a mudar.

É justamente esse movimento que trabalhamos no Método RESSOMA.

Reconhecer. Escutar o corpo. Simbolizar.

São movimentos que fazem parte de um processo mais amplo de reconstrução, no qual aquilo que antes existia como experiência fragmentada pode gradualmente encontrar linguagem e possibilidade de elaboração.

Por isso, quero deixar uma pergunta para você levar para sua próxima sessão:

Em vez de perguntar apenas “por que meu paciente não fala?”, experimente perguntar:

“De que outras maneiras ele está falando comigo enquanto ainda não consegue colocar sua dor em palavras?”

Quando aprendemos a fazer essa pergunta, o silêncio deixa de ser apenas um vazio na sessão.

Ele também passa a fazer parte da escuta.


Aprofunde sua compreensão sobre Psicanálise e Trauma

Se você é psicólogo, psicanalista ou terapeuta e deseja aprofundar sua compreensão sobre como o trauma aparece na clínica e quais cuidados precisamos ter em seu manejo, preparei um conteúdo gratuito para você.

No Webinário Psicanálise e Trauma, aprofundo algumas das contribuições fundamentais de Freud e, especialmente, de Sándor Ferenczi para compreendermos o trauma e pensarmos uma escuta clínica mais cuidadosa.

[ASSISTA GRATUITAMENTE AO WEBINÁRIO PSICANÁLISE E TRAUMA]

Compartlhe esse conteúdo 🚀

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *